
A Casa Vergílio Ferreira – Para Sempre, em Melo, inaugura no próximo dia 10 de junho, às 15h00, a exposição «Manhã Submersa de Vergílio Ferreira – Entre a clausura e a aspiração à “realização integral”», dedicada a um dos títulos mais marcantes da obra do escritor. A iniciativa, promovida pela Câmara Municipal de Gouveia, percorre a génese, as polémicas e a permanente atualidade do romance que o autor de Melo publicou em 1954.
Concebida a partir de um percurso de investigação assinado por Jorge Costa Lopes, investigador do Instituto de Literatura Comparada Margarida Losa (ILCML), a mostra conduz o visitante por aquela que é, simultaneamente, uma obra de ficção e o testemunho transfigurado da passagem do autor pelo Seminário. Nascido em Melo a 28 de janeiro de 1916, Vergílio Ferreira ingressou aos onze anos no Seminário Menor do Fundão, experiência que viria a converter em literatura naquele que descreveu como um ato de catarse.
A exposição acompanha as várias etapas do romance: dos primeiros anos e da entrada no Seminário à difícil oficina de escrita, prolongada entre 1949 e 1953; do confronto com a Censura do Estado Novo, que exigiu cortes e alterações ao texto então intitulado Cavalo Degolado, à receção crítica que envolveu nomes como Óscar Lopes, Mário Sacramento e Eduardo Lourenço. É também recordada a adaptação ao cinema, realizada por Lauro António em 1980, na qual o próprio Vergílio Ferreira interpretou, com ironia, o papel do Reitor.
Mais do que um regresso ao passado, a exposição propõe uma leitura do romance à luz do presente. Pensado pelo autor como reflexo de todos os mundos fechados e dos regimes de vigilância, Manhã Submersa mantém-se, segundo a investigação que lhe dá origem, paradoxalmente atual num tempo dominado pela tecnologia e pelas novas formas, mais subtis, de controlo da liberdade individual.
A inauguração, integrada nas comemorações do Dia de Portugal, decorre num espaço de forte simbolismo: a casa da aldeia natal do escritor, hoje transformada em lugar de memória e de fruição cultural.