O retrato como sismógrafo: Vasco de Castro revisitado

No seguimento de uma mostra de desenhos do período revolucionário e pós-revolucionário português e do período parisiense imediatamente anterior, aberta no ano passado na Casa da Imprensa de Lisboa, esta nova exposição no Museu Abel Manta de Gouveia visa reforçar o papel de Vasco de Castro (1935-2021) como “um dos maiores e incisivos comentadores pela imagem do nosso mundo político e cultural”, tal como escreveu Vergílio Ferreira em 1985. Com recurso a empréstimos institucionais como o do Museu Bordalo Pinheiro e particulares como o de Osvaldo de Sousa, referência na história do cartoon em Portugal, bem como de muitos antigos amigos e colaboradores do artista, a exposição visa também relacionar Vasco com o seu amigo Vergílio Ferreira, natural de uma aldeia do concelho de Gouveia, eminente romancista e diarista português no século XX, que sobre ele deixou reflexões de profundo conhecedor ao longo do diário “Conta-corrente” e com quem discutiu apaixonadamente sobre a caricatura e a pintura, discussões de que saiu o âmago do seu último romance, “Na tua face”, em 1993. Em articulação com a exposição, será apresentada uma mesa-redonda em torno da obra de Vasco no Festival Literário de Melo em Outubro.
Nota biográfica
Vasco nasceu em Ferreira do Zêzere, em 1934, mas foi moldado em forja transmontana e literata, na Vila Real dos anos 1930-50. O seu nome completo, Agostinho Vasco da Rocha e Castro, era já um tributo ao bisavô Agostinho da Rocha e Castro (jornalista amigo de Guerra Junqueiro) e ao avô Vasco da Rocha e Castro, que integrou o grupo coimbrão Boémia Nova (com António Nobre, Agostinho de Campos, Alberto de Oliveira e António de Mello). Do tio-avô João da Rocha e Castro, advogado maçon, herdou o gosto pela leitura sôfrega, e de seu pai, Afonso da Rocha e Castro, o gosto pela dimensão poética da vida.Desde cedo ligou a sua vida aos jornais, primeiro como autor de jornais-folhetim na escola, depois como correspondente do Mundo Desportivo, aos 15 anos. Tem então o seu baptismo de fogo no desenho satírico, uma série de caricaturas de docentes durante a cerimónia do Dia da Raça, logo premiada com uma suspensão de 8 dias e a reprovação no 7.º ano por excesso de faltas. Doravante não mais largará o cartoon e a imprensa.
Áreas Expositivas
![“Avante 01 4!” [Rafael Bordalo Pinheiro e auto-retrato de Vasco], s.d., 24 x 23,3 cm (col. EGEAC/Museu Bordalo Pinheiro).
Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) foi um polifacetado artista português, sendo considerado o pioneiro do desenho satírico de imprensa e seu promotor em várias revistas da especialidade. Neste âmbito concebeu a icónica figura do «Zé Povinho», porta-voz mordaz do povo português face à política quotidiana, o qual celebra presentemente 150 anos.](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/MRBP.VAS_.0019-250x300.jpg)


Secção 1





![Desenho s.t. [Che Guevara] do portefólio Vasco, Paris, Editions Trait Tiré, c.1972 (col. Daniel Melo; cortesia de Eduardo Costa Dias). O líder guerrilheiro Che Guevara (1928-1967) personificou o internacionalismo revolucionário dos anos 1960/70 e foi um dos ídolos das gerações terceiro-mundistas.](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/Portefolio-Edition-Trait-Tire-Che-250x300.jpg)


Secção 2



![Desenho s.t. [Salazar a almoçar], s.d., tinta da china, 20,5 x 29,5 cm (col. EGEAC/Museu Bordalo Pinheiro).
Após o regresso do exílio, Vasco teve em Salazar um dos seus alvos predilectos, em jeito de exorcismo e de ajuste de contas com um dos ditadores mais tempo firmado no poder. A caricatura anti-Salazar existiu durante a ditadura, embora com tom velado, ou então circulando clandestinamente. Contudo, Vasco parece só lhe ter prestado atenção no regresso a Lisboa, centrando-se antes em Franco, pois era um alvo mais reconhecido pelo auditório francês a que então se dirigia.](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/MRBP.VAS_.0079-250x300.jpg)
Secção 3



Secção 4

![Desenho s.t. [Natália Correia e Luiz Pacheco], 199-, tinta da china e guache sobre papel ass. Vasco (col. António Melo).
Natália Correia (1923-93) e Luiz Pacheco (1925-2008) foram dois escritores assumidamente anti-salazaristas que também foram editores, ambos com conexões a grupos surrealistas e grandes divulgadores.](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/cartoon1-250x300.jpg)



![«Il Maestro» [Cavaco Silva], 19/3/2006, 20,5 x 28,9 cm (col. EGEAC/Museu Bordalo Pinheiro).
Aníbal Cavaco Silva foi primeiro-ministro de Portugal em 1985-95 (década por vezes definida como «cavaquismo», pela sua forte marca e carisma pessoais) e Presidente da República Portuguesa em 2006-16. Presentemente é membro do Conselho de Estado.](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/MRBP.VAS_.0015-250x300.jpg)



![Desenho s.t. [Bernardino Machado], s.d., 36,1 x 29,5 cm (col. EGEAC/Museu Bordalo Pinheiro).
Bernardino Machado (1851-1944) foi um destacado dirigente maçon e republicano, ministro na I República e Presidente da República em 1915-17 e em 1925/6 (ambos os mandatos findando abruptamente devido à sua destituição por golpes militares, primeiro por Sidónio Pais, depois por Gomes da Costa). Formado em Matemática e em Filosofia, foi docente na Universidade de Coimbra e pedagogo influente, sobretudo no âmbito da vulgarização científica e no movimento das universidades populares/ livres.](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/MRBP.VAS_.0100-250x300.jpg)





Secção 5
![Cartão de boas-festas «Bla Bla Bla… Mês voeux pour 99!» [auto-retrato de Vasco], 1999, 21 x 10,1 cm (col. EGEAC/Museu Bordalo Pinheiro).](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/MRBP.VAS_.0024-250x300.jpg)
![«V Mil Hurras!» [auto-retrato de Vasco], 2000, 10,2 x 21,1 cm (col. EGEAC/Museu Bordalo Pinheiro).](https://www.cm-gouveia.pt/wp-content/uploads/2026/06/MRBP.VAS_.0046-250x300.jpg)

Secção 6



